sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Fim da novela?!!!

Eis a última informação da secretaria:
Professor,

Tem que copiar o link e colar no navegador.

Att,

Léo

Então eh isso : pega este link https://aluno.unb.br/noiticas-posgraduacao/74-avaliacao-de-disciplina
copia e cola na busca em cima do navegador. Eu fiz e foi.

Vídeo - Observar os "Lugares Sem"

Boa tarde pessoal,

Aqui segue o vídeo que elaboramos para a apresentação do nosso seminário do dia 02/12.
Por motivo de choque de horário com o meu trabalho, infelizmente não pude participar das últimas aulas com vocês. Mas agradeço o contato e o ótimo semestre que tivemos. Desejo a todos um ótimo final de ano.

https://www.youtube.com/watch?v=SYtxiVM62qI&feature=youtu.be
     
                                             Processo Criativo da ATA



Eixo Musicalidade - Orquestra que conta histórias

 Na sua formação artística e carreira além de pianista e ator Hugo Rodas também foi dançarino. Integrou grupos de teatro-dança. Em especial no grupo em que trabalhou com a dançarina  uruguaia Graciela Figueiroa exercitou um modo de produção cooperativo e de pesquisa corporal individual sobre a temática dada. Como as apresentações desse grupo se davam em espaços não convencionais os atores-dançarinos eram responsáveis pela invenção do espaço e criação da atmosfera cênica, falando, cantando, dançando ou tocando instrumentos musicais (SOUZA, 2007, p. 56). Essa prática de se iniciar um espetáculo com música e ou uma coreografia enquanto o público adentra o teatro, ou num espaço ao ar livre a fim de chamar a atenção e delimitar o espaço de apresentação é muito presente nos espetáculos de Hugo Rodas. 
 
Tradicionalmente a música instrumental é usada como abertura tanto numa ópera, sendo tocada por uma orquestra, quanto num espetáculo circense tocada por uma fanfarra, fazendo uma preparação, criando uma ambientação para o que virá a seguir: uma cena dramática ou uma cena cômica por exemplo. Segundo CHAVES (2011), numa montagem teatral a escolha dos instrumentos é feita de acordo com o ambiente onde se apresenta. Para o teatro de rua há a preferência pelo uso da gaita (de oito baixos por sua intensidade sonora e peso do instrumento) ao acordeom pela facilidade de carregar. Instrumentos leves de percussão e violino também são bastante usados.

Na ATA os  atores que foram observados tocam gaita, violino, violão, contrabaixo, pandeiro, zabumba, acorde e saxofone. Com exceção dos que já possuem formação musical, os atores se encaixam no perfil dos atores-músicos pois ainda se encontram em formação como músicos.

 Em dois espetáculos assistidos: "Punaré e Baraúna" (ao vivo) e "Ensaio Geral" (pelo You Tube) há a presença de músicos convidados para  executar a trilha  sonora criada junto com os atores. Esses espetáculos iniciam suas narrativas com uma música de abertura (Abertura - Peça musical destinada a anteceder uma ópera, uma suíte ou sinfonia), a música de apresentação da ATA . Uma canção onde todos os atores e músicos cantam e dançam criando uma identificação de grupo que se denomina  "Orquestra que conta estórias". Perguntado aos atores o porquê de orquestra, um deles respondeu que escolheram o termo orquestra mas o significado é mais no sentido de fanfarra, de tocar e vibrar em conjunto. Nessas duas montagens fica claro o uso da música como recurso de ligações entre as cenas tornando os espetáculos fluidos sem separações de cena marcadas. Em um das cenas de "Punaré e Baraúna" em que mãe e filha dialogam: a mãe canta um recitativo, em seguida a filha responde falando e emenda uma canção que é cantada pelos atores como um coro deslocando o foco da cena. 
 
A música em muitos momentos não é apenas um fundo musical mas funciona como um "intermezzo"(Trecho instrumental, tocado entre os atos de uma ópera ou entre as partes de um drama).Hugo compõe suas cenas junto com os atores equilibrando dois ingredientes básicos da forma musical: repetição e contraste. Segundo Bennett: "É necessária alguma repetição das ideias musicais para dar certa unidade à peça" (BENNETT, 1986).

            Ao analisar um exercício de improvisação realizado pelos atores Hugo Rodas diz: "Prefiro a repetição porque dá a  claridade da personagem. Se eu faço coisas de mais mostro muitos personagens". Ele cria partituras de ações físicas como se escrevesse música. Valoriza bastante as pausas (congelamentos e silêncios) entre os movimentos, falas e canções dos atores. Utiliza-se bastante de contrastes musicais como: mudanças repentinas de caráter  (passa de um movimento triste ou pesado, acompanhado por uma música, para um movimento vibrante, leve por exemplo).

            Numa mesma música está sempre mudando o andamento (acelerando e desacelerando), variando a dinâmica (sons fortes e fracos), textura e timbre (ou colorido instrumental). Tudo num jogo de criações de tensões e relaxamentos. Por sua percepção auditiva apurada, advinda de sua experiência musical, Hugo analisa cada fala e canto de seus atores e exige um grau de refinamento na interpretação. Mais de uma vez chamou a atenção de seus atores para um erro muito comum que é perder a energia da emissão vocal quando se pede para diminuir o volume da sonoridade da fala ou canção. E chegou a usar expressões redundantes como: "isso é música cantada" ao explicar para uma atriz que não queria que ela cantasse de forma marcada cada nota.

 
Referência:

Bennett, Roy - Forma e estrutura na música : tradução Luiz Carlos Cseko; revisão técnica Luiz Paulo Horta - Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1986.

Chaves, Marcos  Machado - A trilha sonora teatral em pauta: Experiências de criadores de trilha sonora em Porto Alegre. Dissertação (Mestrado)-UFRGS, Instituto de Artes, Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas. Porto Alegre, 2011, 103f.

Souza, Claúdia Moreira - O garoto de Juan Lacaze: Invenção no teatro de Hugo Rodas. Brasília: Instituto de Artes, UnB, 2007, 212f.

 

 
Eixo: Musicalidade - Trilha sonora e preparação vocal          
 

    Uma das funções que a música tem nos espetáculos teatrais ou performáticos é a de ser trilha sonora. Em alguns processos criativos, como o do grupo ATA , a música como o movimento e a voz falada do ator, é geradora do próprio espetáculo e pode muitas vezes ir definindo as estéticas e narrativas do mesmo. O conceito do que vem  a ser trilha sonora não é fechado. O pesquisador Chaves (2011), conceitua trilha sonora como tudo que se escuta no teatro, todas as sonoridades presentes, incluindo até o barulho, ruído do andar dos atores no palco, e especifica como Trilha Sonora Total quando abarca todos os sons do espetáculo e Trilha Sonora Musical quando se refere às músicas de cena na montagem teatral.

    Há inúmeras formas de se trabalhar / criar uma trilha sonora total e mais especificamente uma trilha musical num espetáculo teatral. Uma delas seria a pesquisa investigativa com a criação, por encomenda, por um compositor em separado, a partir de um tema sugerido (guerra, pobreza, ostentação por exemplo), referências de personagens (cômico, dramático e outros), como inspiração às sonoridades. Outra forma seria a criação colaborativa com os atores, compositor e elementos cênicos durante o processo criativo, com o uso da improvisação principalmente, sem centralizar a criação numa pessoa só. 

    O uso de músicas prontas (não originais) em trilhas sonoras gera controvérsias porque estas músicas possuem históricos e identidades culturais. E esta identidade pode mudar de acordo com a região onde a montagem teatral ou performance é apresentada. As músicas são feitas de signos e a ela são agregados significados de maneira imprevisível. O boicote que a Orquestra Filarmônica de Israel, uma das mais conceituadas orquestras no mundo, fez com o repertório  de compositores que apoiaram ou foram usados pelo regime nazista é um exemplo.

    Para a criação de uma trilha total ou musical seja ela isoladamente por um compositor ou em processo colaborativo vai ser exigido um conhecimento prévio sobre as possibilidades de expressão vocal, percepção auditiva e execução instrumental dos atores. Segundo Chaves (2011), a técnica e a capacidade de criação estão diretamente relacionadas ao improviso. Quando o artista tem mais repertório e conhecimento sobre o instrumento que toca, mais possibilidades de escolhas ele tem no momento de improvisar. Para ele o ator ao cantar ou tocar algum instrumento, não precisaria ser um exímio músico, bastaria aprender a executar a música de cena ou sonoridade pedida para aquela montagem. Há nesta afirmação uma evidência da procura de soluções rápidas para uma deficiência na formação dos atores quanto ao conhecimento ao respeito da sua própria voz e falta de treinamento vocal/instrumental. De acordo com Davini (2007 apud Chaves, 2011) , pós-doutora em Teatro pela Universidade de Londres e ex-professora da Universidade de Brasília, a falta de preparação vocal, faz com que os atores sofram de "ansiedade vocal" quando exigidos vocalmente a repetir pequenos trechos melódicos ou rítmicos. O que não deveria acontecer pois já quando se trabalha um texto, estão trabalhando entonação (também existe melodia na fala), aceleramentos e desaceleramentos (variações de velocidade no ritmo da fala). DAVINI (idem), condena a influência da separação entre corpo e mente que advém da concepção cartesiana. Para ela: " a voz é o artista e o som deve ser resultado de uma emissão corporal, de uma vivência corporal com suas virtudes e deficiências"  (DAVINI, 2007, p. 85 tradução CHAVES, 2011, p. 74 ).

    Há diferenças de projeção vocal para espaços abertos e fechados.  Berry (1993), preparadora vocal do The Royal Shakespeare Company, diz que o conhecimento que o ator tem das características de sua voz gera auto confiança e: reflete na criação de sonoridades; na resposta às necessidades do espetáculo quanto ao palco e na construção da personagem. Ela aponta quatro fatores que condicionam a voz: ambiente, percepção auditiva, agilidade física e personalidade. Para ela:" a nossa voz é uma mistura do que eu ouço, como ouço e como elejo usar tudo que ouço à luz da minha experiência e personalidade" (BERRY, 1993 apud DAVINI, 2007,p. 60 tradução CHAVES, 2011).

    O compositor de trilhas sonoras Oliveira (2010 apud CHAVES,2011) afirma que uma dificuldade extra de se cantar em cena é a ausência do registro tonal. Como acertar o tom sem um apoio harmônico? Se para um músico experiente isso é sempre um desafio, imagine para um ator - músico. "Não precisa cantar como um cantor de ópera e sim' cantar como um ator que canta' "(OLIVEIRA, 2010 apud CHAVES, 2011, p. 76 ). Uma visão equivocada pois o preparo e o domínio que o cantor de ópera precisa ter do seu aparelho vocal, de todo o seu corpo, caixa de ressonância,lhe possibilita usar toda a sua extensão vocal como um bailarino que se estende ao máximo mas com qualidade de movimento; e variar a intensidade da emissão usando todas as caixas de ressonância ou não, misturando os chamados de registro de cabeça e de peito por exemplo, como um atleta que pratica saltos à distância. Este tem que fazer uma força propulsora para saltar e deixar o corpo  liberado para alcançar uma maior amplitude no  salto. Muitos espaços usados para a cena não são adequados fisicamente para uma boa projeção da voz falada e voz cantada sejam eles espaços abertos ou fechados. Pode haver muita reverberação ou muito pouca. Isso pode ocasionar um desgaste vocal nos cantores se eles não tiverem consciência dos seus limites vocais e da otimização de suas emissões.

     CHAVES (2011), ressalta que uma apropriação dos signos musicais às vezes se faz necessária numa obra vocal ou instrumental que se pretende executar e para isso é preciso o treinamento e desenvolvimento das habilidades exigidas. A figura de um preparador vocal / musical é então primordial para o aprimoramento técnico na execução vocal / instrumental e da escuta dos atores. O preparador e diretor musical do Grupo Galpão de M.G. Ernani Maletta diz:

 [...]a execução dos diversos arranjos vocais é exercício usual para a continuidade de sua formação artística não apenas por alimentar a sensibilidade dos atores no que diz respeito ao seu ouvido musical e ao canto, mas, também, por permitir que eles se habituem a conviver com as várias vozes que a encenação exige, ampliando a sua capacidade de escuta cênica. (MALETTA, 2009, p. 30 apud CHAVES, 2011).

     O trabalho com o canto coral é uma alternativa,  tanto no treinamento de atores para uma iniciação musical, com aprendizado de notação musical, exercícios de respiração e aquecimento vocal para o canto e outros e aprimoramento do ator-cantor. Por ser uma atividade que é feita em conjunto, além de todos os benefícios citados acima, do ponto de vista econômico não demanda um investimento tão alto quanto um ator iniciante pagar aulas particulares de canto ou preparação vocal.

  

Referência:
Chaves, Marcos  Machado - A trilha sonora teatral em pauta: Experiências de criadores de trilha sonora em Porto Alegre. Dissertação (Mestrado)-UFRGS, Instituto de Artes, Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas. Porto Alegre, 2011, 103f. Disponível em: http://hdl.handle.net/10183/31780

APRESENTAÇÃO - PROCESSO CRIATIVO ATA

Pessoal, segue link para acesso aos materiais apresentados na última quarta-feira, sobre o processo criativo da ATA (Agrupação Teatral AMACACA), sob direção de Hugo Rodas.


https://drive.google.com/folderview?id=0B45JjenT5-nwcklMcWcxeEVmRkE&usp=sharing


Estão convidados a darem uma olhada no nosso blog também, ok?

www.temposritmos.blogspot.com


Até Breve,

Grupo composto por:

Cláudia Moreira
Cristina Leite
Maria Lúcia
Mônica Leite

Referências

Professor Marcus, conforme orientação, faço esse post para solicitar referências sobre pesquisa-ação X pesquisa-intervenção.

Grata desde já.

Cristina Leite

O foco na oralidade na condução de Hugo Rodas

Por: Cristina Leite



A Fala é música. O texto de um papel ou uma peça é uma melodia, uma ópera ou uma sinfonia. A pronunciação no palco é uma arte tão difícil como cantar, exige treino e uma técnica raiando pela virtuosidade. Quando um ator de voz bem trabalhada e magnífica técnica vocal diz as palavras de seu papel, sou completamente transportado por sua suprema arte. Se ele for rítmico, sou involuntariamente envolvido pelo ritmo e tom de sua fala, ela me comove. Se ele próprio penetra fundo na alma das palavras do seu papel, carrega-me com ele aos lugares secretos da composição do dramaturgo, bem como aos da sua própria alma. Quando um ator acrescenta o vívido ornamento do som àquele conteúdo vivo das palavras, faz-me vislumbrar com uma visão interior as imagens que amoldou com sua própria imaginação criadora. (STANISLAVSKI,1983)

Levando em consideração a ênfase dada ao trabalho com a oralidade durante os ensaios observados, este tópico versará sobre o trabalho oral, ou como definiria o próprio Hugo Rodas, a dramaticidade da palavra. Houve ensaios em que este talvez tenha sido o tema gerador de todas as propostas, dada sua recorrência e relevância.
Conforme FORTUNA (2002): “Voz é feitiço, enigma, poder. Voz é alma. Voz, com ela o ator atrai ou separa, une ou cinde, envolve ou rompe. Voz, magia viva, lenta ou rápida. Rara! Voz, instrumento nobre do ator. Seu corpo estético-erótico. Sua carne amante e rebelde”. Essa definição pode ser percebida durante muitos exercícios, pois Hugo buscava extrair o máximo de expressividade da palavra proferida que, também, precisava ser sentida, cujo significado deveria também ser percebido no corpo. Ao comando do diretor, de grande sensibilidade estética, podíamos perceber o quanto os atores tinham um melhor desempenho ao seguirem as orientações de Hugo Rodas.
De forma geral, pode-se dizer que uma maneira linear de se explorar a palavra seria confortável, pois traria respostas prontas, de maneira estática, parada, algo totalmente contrário ao trabalho proposto por Hugo Rodas. Em sua direção, as palavras passam a ocupar um terreno movediço, totalmente inusitado, em que não basta ser proferida: é preciso que saia das “entranhas” do ator, ou seja, é necessário que o corpo esteja totalmente presente e junto à fala, para que a mesma não se torne algo perdido em si, pois, segundo GROTOWSKI:
Porque por meio de diferentes estímulos do corpo, aplicados do exterior, podem causar uma reação de todo o corpo. Existem alguns impulsos que provêm do interior do corpo e que precedem uma reação do corpo, mesmo que seja inarticulada. São esses os impulsos que conduzem a voz (...) A voz é uma extensão do corpo, do mesmo modo que os olhos, as orelhas, as mãos: é um órgão de nós mesmos que nos estende em direção ao exterior e, no fundo, é uma espécie de órgão material que pode até mesmo tocar. (GROTOWSKI, 2010, p. 158, 159)

Há, portanto, nos ensaios, uma busca por um trabalho orgânico, com a participação ativa de todo o corpo, interligado em busca da expressão de uma verdade, desde o aquecimento corporal. Não existe um momento para treinamento específico da voz, separadamente do corpo. Com Hugo, o trabalho é feito de maneira integrada, por meio de atividades corporais e vocais ao mesmo tempo, característica que dialoga com a condução de Grotowski, em que:
o que não deveriam fazer é, a meu ver, muito mais importante; quer dizer que não devem fazer exercícios vocais, mas devem usar a voz em exercícios que envolvam todo o nosso ser e nos quais a voz irá se liberar sozinha. Talvez devam trabalhar falando, cantando, mas não devem trabalhar a voz, devem trabalhar com todo o seu ser, com o todo o corpo. (GROTOWSKI, 2010, p. 158)

Uma forma de melhorar a expressividade oral dos atores é por meio de um trabalho explorativo com a dicção. Para isso, houve a solicitação da leitura oral, em que era necessário ler o texto e repetir exaustivas vezes, em busca de uma totalidade.  Conforme defende FORTUNA (2010), “A leitura em voz alta é uma verdadeira arte. Possivelmente, bem mais difícil e complexa do que a representação teatral. Geralmente, não lhe damos muita importância. A leitura em voz alta educa os músculos da fonação e da articulação, disciplinando os movimentos respiratórios.” Assim, muitas vezes, foi possível apreciar o crescimento da expressão oral do ator ao seguir as orientações dadas. Hugo Rodas tem a capacidade de agir na sutileza. Às vezes, apenas a diferenciação de uma entonação em uma palavra fazia a cena crescer em expressividade poética. Mais do que nunca, a língua era tratada como algo vivo, em que as palavras precisavam ser “mastigadas”, sentidas, vindas de dentro para fora. A oralidade deveria acompanhar o trabalho corporal em todo instante. Hugo Rodas chegou a criar uma nomenclatura para isso, a qual denomina: Oralidade Muscular, em que se exige total entrega corpórea, emocional e vocal. Tudo precisava estar conectado, vibrando junto. Os atos cênicos também deveriam falar por si, impregnando a cena de completude. Novamente, podemos encontrar um diálogo com FORTUNA:
A que estrutura textual/sonora referimo-nos nestas relações? A uma estrutura muito, mas muito maior do que simplesmente a que faz o ator falar; mais extensa do que a simples e óbvia forma técnica; uma forma estética global, a compreender: corpo, razão, emoção, criatividade, sensibilidade, jogo, humanidade. Uma verdadeira poética da expressão oral no teatro, construída pelo maestro do jogo, o ator: o próprio jogador mágico. (FORTUNA, 2000, p. 15)

Convém ressaltar, ainda, que a língua só se realiza enquanto prática social, o que pressupõe uma interação entre os envolvidos. Será que o ator está sendo escutado por seus pares? E mais: será que está escutando seus pares adequadamente? Sabe-se que, muitas vezes, na atualidade, existe uma grande dificuldade em se escutar o outro efetivamente. Isso não pode estar assim na cena dirigida por Hugo; ao contrário: há um coletivo que precisa estar conectado, sintonizado e afinado; pois é “uma orquestra que conta histórias”. Hugo, diretor exigente, busca essa integração constantemente, verificando, intervindo, pedindo que se diga novamente, que se experimente de outras maneiras, que busquem outras possibilidades... E, assim, a palavra nos permite adentrar no fluxo ininterrrupto do discurso dos atores, cada um a seu modo, compondo os acordes da grande sinfonia, lembrando, ainda, conforme afirma FORTUNA (2000): “o objetivo final do ator é, mais que persuadir, enfeitiçar a plateia (...) O ator deve ser incentivado a jogar permanentemente, procurando ser o maestro genial de um jogo fascinante: a oralidade em sedução”. Hugo Rodas parece ter domínio sobre como conquistar essa sedução, por meio das palavras, buscando a magia de sua expressão em plenitude. Algumas vezes, por meio de estímulos vários, as palavras vão surgindo soltas, desconexas, aleatoriamente. Assemelha-se a uma brincadeira com as palavras, pois é bastante lúdica a provocação. Os atores vão entrando na viagem com o diretor e as palavras começam a ganhar corpo, vão construindo uma semântica subliminar, a criatividade começa a fluir com a participação de todos e não demora muito para virarem poesia e... música. Nesse momento, Hugo Rodas se mantém presente, vívido, entregue ao que, na vida, aprendeu a amar fazer: dirigir, ensinar, conduzir... enquanto é! O resultado desse trabalho? Novamente, um diálogo com Grotowski:
Há algo de incomparavelmente íntimo e fecundo no trabalho com o ator entre a mim. Deve ser atento, confiante e livre porque o nosso trabalho é explorar as suas possibilidades extremas. O seu crescimento é seguido com observação, estupor e desejo de ajudá-lo; o meu crescimento é projetado sobre ele, ou melhor, é descoberto nele – e o nosso crescimento comum torna-se revelação. Isto não é instruir um aluno, mas total abertura a uma outra pessoa onde se torna possível o fenômeno de um “nascimento duplo ou compartilhado”. O ator renasce, não somente como ator, mas como homem – e com ele, eu renasço. (GROTOWSKI, 2010, p.112)

Hugo Rodas faz a diferença na vida profissional e pessoal das pessoas dirigidas por ele, conforme depoimentos das mesmas. É uma espécie de mago, de mestre, de maestro, entregue com paixão e intensidade ao seu ofício, de reger uma orquestra que conta histórias.

Referências

FORTUNA, Marlene. A performance da oralidade teatral. São Paulo: AnnaBlume, 2000.

__________, Marlene. Calíope: a musa grega da eloquência incorporando-se à oralidade do ator teatral. INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Salvador/BA – 1 a 5 Set 2002. Disponível em: http://www.portcom.intercom.org.br/pdfs/126371950371322257308648604450212363076.pdf

GROTOWSKI, Jerzi. O teatro laboratório de Jerzi Grotowski 1959- 1969/ textos e materiais de Jerzi Grotowski e Ludwik Flaszen com um escrito de Eugênio Barba; curadoria de Ludwik Flaszen e Carla Pollastrelli com a colaboração de Renata Molinari; tradução para o português Berenice Raulino. São Paulo: Perspectiva: Edições SESC, 2010.

STANISLAVSKI, Constantin S. A Construção da Personagem, 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983. p. 106.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Encontro final quarta passada

Bem encerramos nossos encontros com a apresentação dos dois últimos grupos.
Podemos ver como há uma convergência entre os objetos de observação escolhidos pelos grupos de observação da turma. De fato, a questão da organização dos encontros e interações entre os integrantes dos processos criativos estudados, uso de recursos  exploratórios(improvisações) e a musicalicade efetiva são  pontos em comum.
Sobre o primeiro grupo, a demanda maior por conceptualização está diretamente relacionada a dois fatores: a amplitude e complexidade do objeto mesmo de investigação e o grande envolvimento dos integrantes do grupo na observação. Quanto mais há um investimentos de tempo qualitativo em todas as etapas de observação e processamento do material observados, mais questões e maior definição da recepção.
Um dos grandes tópicos ainda a desenvolver seria o da relação entre texto e processo criativo. Texto é uma das fontes materiais do espetáculo. Há, como foi notado, uma homologia entre a forma de organização do texto base e algumas decisões criativas.  Mas este tópico precisaria ser mais aprofundado com leituras sobre questões de adaptação e relações entre teatro e literatura.  Há um excelente livro sobre isso: Transposing Drama, de Egil  Törnqvist,  e o sempre citado Uma teoria da Adaptação, da Linda Hutcheon.
No mais, como exercício dentro de uma disciplina, o grupo foi mais além do trabalho esperado, produzindo um artigo e um debate bem enriquecedor sobre seu objeto de investigação.


O segundo grupo:
o objeto de investigação demandava uma revisão de expectativas, ou teste de percepção, uma redefinição de estratégias, pois o grupo de observação se situou diante de uma material heterogêneo, entre um trabalho já realizado e outro ainda em processo.
Há a necessidade, em alguns momentos, de ultrapassar uma lógica negativa que vê no improviso ou no ato exploratório algo fortuito ou transcendental.
Outra questão é o da falácia biográfica: tentar explicar os processos pela referência constante a informações da vida do sujeito investigado é transferir o foco da atualidade dos eventos para algo fora do processo criativo que explicaria tudo o que ali acontece. A decorrência da falácia biográfica é o uso de estratégias com causalidade estreita.
Os materiais levantados foram bem significativos, como os vídeos em que Hugo se demora em comentar determinados atos de seus atores. Estes longos momentos são justamente aulas, workshops, demonstrações em que conceito e ação se integram. Esses momentos são o âmago da observação de um processo criativo, pois ali se encontram o evento e seu comentário.
Outro tópico a ser aprofundado é a questão da homologia entre cinema e teatro na condução do processo criativo.
Em todo caso, o grupo demonstrou no tempo em que esteve em contato com seu objeto de observação um esforço vísivel e audível em tentar enfrentar as dificuldades relacionados a um tipo de processo criativo que não visava uma montagem específica.